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Estoques: como funciona a contabilização e avaliação na prática

  • há 9 horas
  • 8 min de leitura
Mulher de óculos observa quadro branco com gráficos e números, em escritório, com expressão pensativa.

Os estoques fazem parte da rotina de praticamente toda empresa que compra mercadorias para revenda, fabrica produtos ou mantém materiais que serão utilizados em suas atividades. Para a Contabilidade, porém, controlar estoque não significa apenas saber quantas unidades estão armazenadas. Também é necessário determinar quanto esses itens valem, quais gastos fazem parte de seu custo, como registrar as saídas e o que fazer quando uma mercadoria perde valor.


Esse assunto se conecta diretamente ao balanço patrimonial e à apuração do resultado. Enquanto uma mercadoria permanece disponível para venda, seu custo geralmente continua registrado como ativo. Quando ocorre a venda, esse valor passa a participar do resultado como custo da mercadoria ou do produto vendido. Por isso, um erro na avaliação dos estoques pode afetar tanto o valor apresentado no ativo quanto o lucro apurado pela empresa. No Brasil, as principais regras contábeis sobre o tema estão reunidas no CPC 16 – Estoques, que determina, entre outros pontos, que os estoques sejam mensurados pelo menor valor entre seu custo e o valor realizável líquido.


Para quem está estudando Contabilidade, entretanto, o mais importante é compreender a lógica por trás dessas regras. Afinal, como descobrir o custo de um estoque? O que entra nesse valor? Como funcionam PEPS e média ponderada? E quando é necessário reduzir o valor de uma mercadoria?]


O que é considerado estoque na Contabilidade?

Quando se fala em estoque, é comum pensar imediatamente nas mercadorias encontradas em uma loja ou em um depósito. Contabilmente, o conceito é mais amplo.


Uma empresa comercial pode manter mercadorias adquiridas com a intenção de revendê-las. Uma indústria, por outro lado, pode possuir matérias-primas, produtos que ainda estão em fabricação, materiais utilizados no processo produtivo e produtos acabados aguardando venda.

Assim, a composição do estoque varia de acordo com a atividade da empresa. Alguns exemplos comuns são mercadorias para revenda, matérias-primas, produtos em elaboração, produtos acabados e determinados materiais utilizados na produção.


A característica principal é que esses itens estão relacionados ao ciclo operacional da entidade. Eles poderão ser vendidos diretamente ou serão consumidos na fabricação de outros produtos que posteriormente serão comercializados. Enquanto atendem às condições para permanecer registrados como estoque, esses valores são apresentados no ativo. Isso explica por que uma compra de mercadorias não se transforma automaticamente em despesa no momento em que ocorre.


Imagine uma loja que compra R$ 30.000 em produtos durante o mês e não vende nenhuma unidade até a data do balanço. Esses R$ 30.000 não representam, simplesmente por terem sido pagos, uma despesa de R$ 30.000 no resultado. As mercadorias continuam na empresa e possuem potencial de gerar receita no futuro, portanto permanecem registradas como estoque.


Quando as unidades forem vendidas, o custo correspondente será transferido para o resultado.


Como calcular o custo dos estoques?

Uma das dúvidas mais frequentes é saber exatamente quais valores devem ser incorporados ao estoque. O erro mais comum é considerar apenas o preço indicado na compra.


O custo pode incluir outros gastos necessários para trazer o item até sua condição e localização atuais. As normas contábeis consideram custos de aquisição, custos de transformação e outros custos que atendam a essa finalidade.

Em uma empresa comercial, por exemplo, podem fazer parte do custo o preço de compra, determinados tributos não recuperáveis, transporte, seguro e outros gastos diretamente atribuíveis à aquisição. Descontos comerciais e abatimentos reduzem o custo.


Imagine uma empresa que compre mercadorias por R$ 40.000 e tenha ainda R$ 2.000 de frete e R$ 500 de seguro diretamente relacionados ao transporte desses produtos. Desconsiderando outros elementos, o custo do estoque será de R$ 42.500, e não apenas os R$ 40.000 apresentados como preço inicial. Em uma indústria, o cálculo pode ser mais amplo porque o produto passa por um processo de fabricação. Nesse caso, além dos materiais utilizados, podem existir mão de obra diretamente relacionada à produção e custos indiretos de fabricação que precisam ser apropriados aos produtos.


Isso não significa, entretanto, que qualquer gasto da empresa possa ser colocado dentro do estoque. Despesas comerciais, determinados gastos administrativos e desperdícios anormais, por exemplo, não devem ser adicionados ao custo simplesmente porque aconteceram durante o período.


A pergunta que ajuda a resolver boa parte das situações é: esse gasto foi necessário para colocar o estoque na condição e no local em que ele se encontra atualmente?


PEPS: como funciona esse método?


Depois de determinar o custo das mercadorias adquiridas, surge outro problema. Imagine que uma empresa compre o mesmo produto várias vezes durante o mês, sempre por valores diferentes. Quando algumas unidades são vendidas, qual custo deve ser atribuído à saída?


Um dos métodos utilizados é o PEPS – Primeiro a Entrar, Primeiro a Sair. A lógica é considerar que as primeiras unidades adquiridas são também as primeiras unidades que saem contabilmente do estoque.

Considere este exemplo: uma empresa compra inicialmente 100 unidades por R$ 20 cada e, posteriormente, outras 100 unidades por R$ 25 cada. Ela possui, portanto, 200 unidades disponíveis, que custaram um total de R$ 4.500.


Se forem vendidas 120 unidades utilizando o PEPS, considera-se a saída das 100 unidades do primeiro lote e de mais 20 unidades do segundo lote. O custo da saída será de R$ 2.000 referentes às primeiras 100 unidades, mais R$ 500 referentes às 20 unidades seguintes, resultando em R$ 2.500.

Depois dessa movimentação, restarão 80 unidades adquiridas por R$ 25, formando um estoque final de R$ 2.000.


É importante perceber que o PEPS é um critério de atribuição de custos. O objetivo do exercício não é necessariamente identificar fisicamente qual produto saiu do depósito, mas determinar qual custo será atribuído contabilmente às unidades que saíram e quais valores continuarão registrados no estoque.


Como funciona a média ponderada?

Outra forma bastante conhecida de avaliar as saídas é o custo médio ponderado. Em vez de separar os lotes de acordo com a ordem de entrada, calcula-se um custo médio das unidades disponíveis.


Vamos utilizar o mesmo exemplo. A empresa possui:

  • 100 unidades adquiridas por R$ 20 = R$ 2.000;

  • 100 unidades adquiridas por R$ 25 = R$ 2.500.


São 200 unidades com custo total de R$ 4.500. Portanto:

R$ 4.500 ÷ 200 unidades = R$ 22,50 por unidade.


Utilizando essa média, se forem consideradas 120 unidades na saída, o custo será de:

120 × R$ 22,50 = R$ 2.700.


As 80 unidades restantes terão valor de:

80 × R$ 22,50 = R$ 1.800.


Perceba que o estoque final ficou diferente daquele encontrado pelo PEPS. Isso acontece porque os métodos distribuem os custos de maneiras distintas entre aquilo que saiu e aquilo que permaneceu armazenado.


O CPC 16 admite, para estoques de itens normalmente intercambiáveis, o uso do PEPS ou do custo médio ponderado. Já itens que não são normalmente intercambiáveis e determinados bens produzidos para projetos específicos utilizam identificação específica de seus custos.

Para quem está estudando, o mais importante não é apenas memorizar as fórmulas, mas identificar qual método a questão está pedindo antes de iniciar os cálculos.


Estoque final, CMV e resultado da empresa

A avaliação do estoque está diretamente relacionada ao Custo das Mercadorias Vendidas, o CMV. Quando uma empresa vende mercadorias, o custo correspondente deixa de permanecer no ativo e passa a participar do resultado.


Uma fórmula bastante utilizada em situações simplificadas é:

CMV = Estoque Inicial + Compras − Estoque Final


Imagine uma empresa que comece o mês com R$ 40.000 em mercadorias, faça compras de R$ 100.000 e termine o período com R$ 30.000 em estoque.


Nesse caso:

CMV = R$ 40.000 + R$ 100.000 − R$ 30.000

CMV = R$ 110.000


Os R$ 30.000 restantes continuam no balanço como estoque, enquanto os R$ 110.000 relacionados às mercadorias vendidas passam a compor o resultado.


Essa relação ajuda a compreender por que a avaliação correta do estoque final é tão importante. Se uma empresa superavaliar o estoque que permanece no ativo, poderá reduzir indevidamente o custo reconhecido no resultado. Se subavaliá-lo, o efeito pode ocorrer no sentido contrário.


Em empresas industriais, a lógica é semelhante, embora os cálculos possam envolver produtos em elaboração, produtos acabados e o Custo dos Produtos Vendidos (CPV).

Mais importante do que decorar siglas é compreender o movimento contábil: enquanto o produto permanece no estoque, seu custo está no ativo; quando ele é vendido, o custo correspondente passa para o resultado.


O que é valor realizável líquido?

Calcular corretamente o custo não encerra a avaliação dos estoques. A empresa também precisa analisar se conseguirá recuperar o valor registrado por meio da venda.


É nesse momento que aparece o valor realizável líquido, frequentemente chamado de VRL. Ele corresponde ao preço de venda estimado no curso normal dos negócios, reduzido dos custos estimados para conclusão e dos gastos necessários para realizar a venda. Os estoques devem ser mensurados pelo menor entre seu custo e o valor realizável líquido.


Imagine um produto registrado no estoque por R$ 100. A empresa estima que conseguirá vendê-lo por R$ 115, mas ainda terá R$ 20 em gastos necessários para concluir o produto e realizar a venda.


O valor realizável líquido será:

R$ 115 − R$ 20 = R$ 95.


Como o estoque está registrado por R$ 100 e a empresa espera realizar apenas R$ 95, será necessário reduzir seu valor em R$ 5.


Esse tipo de situação pode surgir quando produtos ficam danificados, tornam-se obsoletos, apresentam queda no preço de venda ou passam a exigir custos maiores para conclusão e comercialização.


O conceito é semelhante a uma pergunta muito simples: quanto a empresa realmente espera obter com esse produto depois dos gastos necessários para conseguir vendê-lo? Se esse valor for menor do que o custo registrado, manter o estoque pelo valor original faria com que o ativo estivesse superavaliado.


Um exemplo reunindo avaliação e valor do estoque

Considere uma empresa que inicia determinado período sem estoque e realiza duas compras. Primeiro, adquire 100 unidades por R$ 30 cada. Posteriormente, compra outras 100 unidades por R$ 40.

O custo total das 200 unidades disponíveis será de R$ 7.000.


Durante o período, são vendidas 120 unidades. Se a empresa utilizar o PEPS, as primeiras 100 unidades sairão pelo custo de R$ 30 e outras 20 unidades pelo custo de R$ 40. Assim, o custo atribuído às unidades vendidas será de R$ 3.800. Permanecerão 80 unidades do segundo lote, com custo total de R$ 3.200.


Até aqui, encontramos o custo do estoque final. Porém, a análise ainda não terminou.


Suponha que essas 80 unidades tenham sofrido uma redução de preço e que seu valor realizável líquido total seja agora de R$ 3.000. Como o estoque está registrado por R$ 3.200, mas a empresa espera recuperar apenas R$ 3.000, será necessária uma redução de R$ 200.


Esse exemplo mostra duas etapas diferentes: primeiro, determinar o custo das unidades que permaneceram no estoque; depois, verificar se esse valor continua sendo recuperável.


É essa sequência que costuma facilitar bastante a resolução dos exercícios.


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Como estudar avaliação de estoques sem se perder nos cálculos


A avaliação de estoques possui várias fórmulas e conceitos, mas o melhor caminho não é tentar aprender tudo ao mesmo tempo. Comece entendendo o que pode ser classificado como estoque e quais gastos fazem parte de seu custo. Depois, avance para PEPS e média ponderada. Somente quando esses métodos estiverem claros, passe para CMV, CPV e valor realizável líquido.


Também vale tomar cuidado com alguns erros frequentes: incluir qualquer gasto no custo, utilizar tributos recuperáveis como se integrassem automaticamente o estoque, confundir PEPS com média ponderada, esquecer de verificar o estoque final e tratar o preço de venda como se fosse o próprio valor realizável líquido.

Para quem está se preparando para o Exame de Suficiência, é importante resolver tanto questões numéricas quanto conceituais. Algumas perguntas exigem encontrar o estoque final ou o CMV; outras podem simplesmente pedir quais gastos integram o custo ou qual critério deve ser utilizado em determinada situação.


No Meu CRC, o estudante pode praticar questões sobre estoques, PEPS, média ponderada, CMV, Contabilidade de Custos e outros conteúdos contábeis, identificando com mais facilidade os pontos que ainda precisam de revisão.


No fim, entender estoques depende de uma sequência lógica: descobrir quanto os produtos realmente custaram, determinar quais custos saíram e quais permaneceram no ativo e verificar se o valor registrado ainda poderá ser recuperado. Com essa estrutura bem compreendida, os cálculos deixam de parecer fórmulas desconectadas e passam a representar etapas de um mesmo processo contábil.

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